Os dias se repetem
Bem ou mal
A ressaca é sempre a mesma
A verdade se arrasta até não querer mais
De noite tudo igual
E o salto é lento
Durmo, fumo, acordo
Outro dia se vai
E o salto é lento de mais
Ninguém voa com os pés no chão
A rotina engole sua juventude
Todo dia sempre igual
Sua luta, labuta, o capital,
Seu tempo não volta
E o que era livre,
Hoje já não é mais
Hoje você mal vê passar
O que era antes seu ideal
Pois é, até
Onde o destino não previu
Sei mas atrás vou até onde eu consegui
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar
Pois É - Los Hermanos
E se um dia, na estrada da vida nossos caminhos se encontrarem.
Das duas uma:
Ou atravesso a rua, ou atravesso a mão na sua cara.
“Um crime para comentar…”
São Caetano dia 22 de setembro. Menino de dez anos comete suicídio após tentar assassinar sua própria professora.
“Um samba para distrair…”
Cê ouviu aquela última do Chico?
Na sua coisa estranha
Na rua, esquina minha
Posso dar certeza
Posso largar a pureza
Te conhecer sem dor
Na vida do artista,
Na sua companhia
Na minha fantasia,
Dentro do meu pudor,
Na sina do amante,
Na esquina da falência,
Num segundo, num instante
Num sossego de um pensador
Só pode ser,
Só pode cor,
Só pode crer,
No quarto da amargura,
No quarto do sonhador.
*
(04.06.2009)
As coisas mudam, o mundo gira
Sonho com perturbações passadas,
Vidas acabadas,
Sinto saudades de nós,
Saudades de vidas atrás
Hoje o Sol lá fora,
Ontem o tempo chorava
Hoje a natureza é morta,
Os dentes amarelos,
De noite a cicatriz dói
Manter-se vivo dói,
Chora noite fria,
Chora dia de Sol.
Durmo para esperar,
Durmo para esquecer,
Durmo para as unhas crescer,
Durmo para a fome passar,
Durmo para mudar de fase,
Mudar de ares,
Durmo para afogar,
As mágoas que o dia me trás,
Durmo para suportar
Para recuperar,
Durmo para acordar
Com o velho fôlego que a noite me dá
E sempre ao amanhecer nessa estrada
Um novo dia
Todo aberto e disposto
para todos os próximos abismos e ápices
Que pela vida há.
*
A humildade de um menino do farol me trouxe a sensibilidade para enxergar as verdades que o dinheiro mascarou. Abraço a nostalgia, mas hoje em dia eu quero menos saudade e mais evolução. A mentira alguém precisa derrubar, se a maioria das pessoas abraçam essas falsidades alguém regado a cerveja, vontade e indignação tem que fazer a diferença. Alguns dizem que ouso demais, mas isso ainda é pouco para o muito que quero. Se a televisão te enche o estômago, o rádio, a música e a arte me deixa cada vez mais vazio e inquieto. E não será os acomodados que me tirará a inquietação, ou farão com que eu me torne um deles. As gerações passam, e só ficam as pessoas que fizeram diferença em suas épocas. Não tenho tempo para esperar a próxima arrumar a atual. Talvez seja ousadia demais quebrar todos os moldes e formatos sociais, viver dentro desses padrões seria a forma mais fácil, embora seja também a forma mais boçal de se gastar uma vida.
Há tempos não durmo bem, ando em passos lentos contra uma multidão apressada e opressora. Vejo no passado histórico soluções que toda a minha geração engoliu e defecou em nossa realidade. Então chacina vira rotina, e as pessoas têm tantas contas para pagar que mal sobra tempo para ver como o seu irmão está triste e perturbado, pelo fato desse padrão social. Política e opiniões críticas viraram chatice, reality show e arte viraram entretenimento. Saudade dos anos 70, as crianças mais sinceras brincando de paz e amor e proponto aos coadjuvantes de “Tempos Modernos” do Chaplin, uma nova forma de realidade. Uma luta contra o começo do fim, e hoje estamos aqui. Hoje o mundo me assusta, não sei dizer quem perdeu ou quem venceu, tiraram da minha infância e da minha cosciência a possibilidade de julgar com qualidade. O mundo acontece, a tecnologia avança e eu me perco no meio desse furacão sem nexo e sentimento. Todos estão crentes de que vivem a melhor vida, eles não sabem mais, eles não tem tempo para saber que a vida é muito mais. Todos estão cegos, surdos e mudos. Censuraram a criatividade, e a todas as condições mais simples e maravilhosas do homem. O conforto engoliu a nossa essência, trocaram as importâncias e vivemos de ponta cabeça rumo ao vago, ao nada, ao fútil.
Na medida do possível fujo de todo esse formato, e busco inspirações para fugir da cidade com os próprios problemas dela. Vendo a realidade crua, percebo bem o que eu não quero. Crio minha bolha, e enfrento a sociedade com suas próprias armas. As vezes essa ferida do mundo me dói, e a cerveja e o cigarro ajudam empurra essa angústia, e me pergunto. - Quantas pessoas de São Paulo viram uma obra do Van Gogh de perto, essa semana? E comparo com: Quantas pessoas xingaram alguém essa semana no trânsito de São Paulo? - Analisando esse gráfico, me faço diferente, e percebo que a melhor fuga é o lazer intelectual, e o ócio criativo cultural. As pessoas necessitam disso, uma essência que trocamos por luxo e futilidades. Não jogue sua vida inteira na merda, faça como eu, na medida do possível honre a sua geração.
Cru Projeto fotográfico baseado em retratos feito em São Paulo e no Nordeste. Retratos que captam a essência da vida cotidiana. O homem por ele mesmo, no seu ângulo mais antropológico, cru e sincero, do jeito que ele é. Brasil e sua realidade na pele. Gustavo Albano http://www.flickr.com/photos/gustavoalbano/sets/72157625192367775/
Uma e meia da manhã, a fumaça dos cigarros cercando o quarto. A segunda garrafa de vinho quase chegando ao fim. As teclas da máquina de escrever já cançadas de ouvir asneiras, o vinil dos Novos Baianos se misturando com o barulho da chuva forte, e há dias escorrem barrancos matando mais de 500, ao seu redor a chuva é um pouco mais leve, mas a mídia consegue transportar por quilômetros de distância, toda a dor e tristeza das milhares de famílias que perdem todos os pertences (materiais ou não) através de causas naturais, interfiridas negativamente pelo homem, claro.
Era uma e meia da manhã, e tocava Samba do Sociólotigo Louco na vitrola e no meio da música, o som, o cheiro da chuva na madrugada a campanhia toca. O que me resta fazer é levantar-me, e olhar pela fresta da curtina na janela. Uma senhora aparentemente tensa, não ousa em tocar novamente a campanhia. Abro a porta, e logo lhe questiono. A senhora, ainda tensa, diz: - Eu moro aqui em cima, e meu filho sofreu um acidente, ele caiu de moto, teria como me arrumar 20 reais, amanhã eu lhe devolvo, moço. Todo mundo me conhece por aqui…
Pensei mais aliviado, não sou bem visto pela vizinhança, e frequentemente vem esses vizinhos reclamar do som alto, ou apenas fofocar. A mulher estava realmente muito tensa, era uma ótima atriz, gesticulava e falava as palavras certas, arrumei a quantia exigida e a desejei boa sorte. Voltei a pensar, espero que ela esteja realmente necessitando desse dinheiro.
Na manhã seguinte, veio a mulher que vez enquando limpa meu apartamento e me faz lembrar de tirar as garrafas de vinho de baixo da cama, e esvaziar os cinzeiros. Enquanto eu tomava o meu café, ela dizia coisas sobre a vida dela. A Cida é uma boa pessoa, é aposentada mora pela vizinhança, e faz uns bicos de faxineira para ver se as coisas melhoram… Ela me dizia, meio tristinha, dizendo que estava muito preocupada, e que o mundo estava realmente um caos. As chuvas, a violência, o trânsito, os problemas de corrupção com a política, muitas pessoas morrendo, a natureza se revoltando contra o homem. E dizia que ontem, foi uma mulher na casa dela, tadinha, que o filho havia sofrido um acidente de moto, e que ela precisava ir ao encontro do filho, e me pediu 50 reais, mas ela disse que morava aqui perto e que hoje de tarde sem falta ela devolveria o dinheiro… pensei em pegar o telefone dela para ver se o filho estava bem, mas ela saiu quando eu fui pegar a caneta.
